Cotidiano

O que aprendi com a Geração do Milênio sobre demissão

Escrito por Ana Dantas

Aquela era uma semana especial para mim. Fim das férias, volta à rotina do trabalho como professora, hora de pensar em novos projetos e no ano letivo, que estava próximo. Criação, planejamento e avaliação do que estava por vir. Também era a semana em que eu completaria cinquenta anos e, sinceramente, não estava sendo nada fácil. Essa idade tem uma simbologia muito grande para as mulheres. Vem acompanhada de medos e inseguranças.

Era 25 de Janeiro, segunda-feira. No início da tarde, cheguei à instituição de ensino em que lecionava há dezesseis anos. Estacionei o carro e segui para a sala da diretora, que havia me convocado para uma reunião. Eu sabia que poderia haver mudanças na estrutura e funções do nosso corpo docente, e estava preparada para alguma modificação. Só não imaginava que sairia dali para me juntar aos 7,7 milhões de desempregados do Brasil (2015).

Em seguida chegou meu aniversário e, diferentemente de todos os anteriores, não consegui comemorar. Cancelei os planos de jantar com a família e escolhi, propositalmente, o livro de minha estante que mais me presentearia com uma mensagem motivacional frente aos reveses da vida. Naquela noite, entrei oficialmente em luto.

Pode parecer exagero, mas é isso mesmo. Não só a morte, mas também as perdas nos levam ao luto. Ignorar ou negar a importância do processo de luto e seus rituais de expressão só intensifica, não alivia o sofrimento.

E cada um vivencia à sua maneira. Eu dormi, comi, dormi, chorei, dormi. Mas não foi só isso, pois eu tenho um hobby (nunca abandone o seu!). Ele me fez levantar da cama, me levou para o mar, para a piscina, para as montanhas e me faz encontrar grandes amigos. O meu hobby é o triátlon, mas com certeza vale qualquer um. O importante é ter prazer no que se faz, mas isso será assunto para outro momento.

Sou da Geração X, nascida entre 1965 e 1981, que começou a trabalhar na década de 1980. Mas confesso que tenho muitos traços da geração anterior, os Baby Boomers, nascidos entre 1946 e 1964. O meu conceito de sucesso, característico da minha geração, sempre esteve atrelado a alguns pilares, como família, casa própria, carro na garagem e emprego estável – de preferência, o mesmo para o resto da vida. Mudar de empresa? Pedir demissão? Jamais. Aos menos para mim, mulher, brasileira, filha de pais da classe média, essas não eram opções. Eu havia sido ensinada a me comprometer com a minha escolha profissional. E assim como querer largar tudo era malvisto, ser obrigada a deixar a empresa poderia ser motivo de pânico.

Somente agora percebo o quanto os arquétipos criados pela minha geração nos trazem sofrimentos extras. Toda essa reflexão teve início quando encontrei uma amiga de infância do meu filho. Contei a ela o ocorrido e ela prontamente reagiu:

-Mas Ana, você só foi demitida uma vez na vida. Eu conheço pessoas da minha idade que já passaram por isso.

Sabe aquele momento em que você para e respira fundo, querendo se certificar de que está no mesmo mundo do seu interlocutor? Em poucos, porém longos segundos, encontrei a resposta: era verdade!

Atualmente, não está só mais comum ouvir falar em demissões, por se tratar de um momento de crise, como também é natural ouvir a notícia de que algum conhecido dos meus filhos largou tudo para respirar novos ares. E foi justamente essa maior abertura para mudanças que eu percebi na Isis, uma jornalista de 27 anos, que faz parte da Geração Y ou Millennials(geração do milênio), os nascidos entre 1982 e 2000. Ela não me olhou com pena. Pelo contrário, quis saber sobre meus projetos pessoais e ficou empolgadíssima para ajudar a concretizá-los. Ela queria ouvir menos sobre o passado e mais sobre o futuro. Queria colocar a mão na massa. Como uma Millennial típica, buscava novidade, aprendizado e um trabalho com significado. Essa é a geração da nova força de trabalho global!

A diferença na maneira de ver o acontecimento do dia 25 nos motivou a buscar, primeiramente, entender como a Geração Y estava redefinindo as relações de trabalho. Começamos a investigar o tema e percebemos que, dentre tantas tendências marcantes, os “Y” estavam sendo conhecidos justamente pela necessidade de dinamismo – não somente relacionado à velocidade com que querem concluir as tarefas a eles atribuídas ou com que buscam feedback, mas também relacionado ao ritmo acelerado com que esperam progredir na carreira. Hoje, eles são cerca de 2,3 bilhões e metade já possui ou planeja possuir o seu próprio negócio.

Além disso, essa geração parece querer “passar para a próxima etapa assim que domina as tarefas atuais ou até antes” (LANCASTER, STILLMAN, 2001). Se não se sentem desafiados, não hesitam em pedir demissão para buscar novos horizontes. Na pesquisa realizada pelos autores, 82% dos entrevistados que se diziam infelizes no trabalho viam a carreira avançar muito lentamente.

Será que eu poderia ser influenciada de uma maneira positiva por esse dinamismo? Será que poderia incorporar à minha vida essa facilidade de dizer “adeus” a uma empresa? Percebi que sim. Procurei, primeiramente, enxergar a demissão de uma forma mais leve. Afinal, estamos em crise, eu não sou a única e, bem, preciso levar em conta que tenho um bom histórico como professora. Depois, refleti sobre tudo o que eu posso conquistar ao tomar um novo rumo na carreira e ao identificar oportunidades no cenário de incertezas que toma conta do país. Por fim, percebi que os Millennials também se moldaram às transformações da sociedade. Eles se adequaram ao ritmo mais acelerado dos dias atuais, ao qual eu preciso me adaptar também. Como diria uma “Y”, mudanças são muito bem-vindas e nada melhor do que estar aberta a elas.

Novos projetos, novos objetivos, novos hábitos. Para a Isis, eu não deveria permanecer no luto durante muito mais tempo, afinal, ainda tenho muito o que fazer nos próximos cinquenta anos. E, convenhamos, é verdade. Eu tenho uma vida inteira pela frente.

(Na Foto minha filha, também da Geração “Y”, fonte de incentivo de todos os dias… )

Por  Ana Dantas (professora) e Isis Dassow (jornalista)

 

Fonte:

Lynne C. Lancaster e David Stillman “O Y da questão: Como a Geração Y está transformando o mercado de trabalho”.

Sobre o autor

Ana Dantas

Mulher, mãe, professora, empreendedora e triatleta.

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